Linhares, domingo, 11 de outubro de 2026 — 13h15 Por Douglas Buzatto Vago
Acordei cedo. Umas 7h40, talvez 8h, não lembro direito. Domingo, casa quieta, café, e aquela vontade de mexer em alguma coisa que não fosse trabalho.
A coisa da vez foi LoRa.
“Quero um LoRa. Potente. Nada de iniciante.”#
Foi assim que começou. E a primeira resposta que recebi foi uma pergunta: LoRa, o rádio, ou LoRA, o fine-tuning de IA? Justo. Em 2026 as duas palavras disputam o mesmo espaço na cabeça de quem mexe com tecnologia. Era o rádio.
E aí veio a primeira lição do dia: em LoRa, “potente” não é potência de transmissão. O TX é limitado por regulação. O que dá alcance de verdade é antena boa, bem posicionada, RF limpo e altura. Muita altura.
Mesh, não LoRaWAN#
A segunda lição foi separar as duas coisas que todo mundo mistura:
- LoRaWAN é estrela: sensor → gateway → servidor. Serve pra telemetria, medidor, nível de caixa d’água. Não é pra gente conversar.
- Mesh (Meshtastic) não tem centro. Cada rádio é um nó que recebe e repete. Você manda texto e posição do celular, via Bluetooth, e a mensagem pula de nó em nó sem internet e sem operadora.
O que eu queria era o segundo. Mensagem por rádio, pura, do jeito raiz.
O mapa vazio#
Abri o mapa do Meshtastic e olhei o Espírito Santo. Tem gente em Vitória. Do norte do estado pra cima: nada.
Foi aí que a ideia virou missão: ser o primeiro nó do norte do ES.
Claro que tem um detalhe. Sozinho em Linhares, meu nó não tem com quem falar por rádio. Vitória fica a uns 130 km, sem visada. Um salto direto disso é fantasia. Mas alguém tem que ser o primeiro, e mesh é exatamente isso: começa com um, depois aparece outro, e a malha cresce em volta. O plano é manter o nó isolado até a rede chegar até ele.
Tentando reaproveitar o que tenho em casa#
Antes de gastar, olhei a gaveta:
- Um Banana Pi: viável. O Meshtastic roda em Linux (meshtasticd) com um módulo SX1262 no SPI. Dá trabalho de pinagem, mas funciona.
- Um NanoStation M900 da Ubiquiti: aqui doeu. É 900 MHz, a faixa certa, mas o rádio é Wi-Fi airMAX, chip Atheros, outra modulação. Não fala LoRa. A antena é integrada, então nem ela dá pra aproveitar direito. Ainda tô com a ideia teimosa de transformar isso num device Meshtastic próprio, nem que eu tenha que escrever o software. Fica anotado.
- Duas antenas de 2,4 GHz: descartadas. Antena é cortada pro comprimento de onda: em 2,4 GHz a onda tem uns 12,5 cm, em 915 MHz quase 33 cm. Ligar uma de 2,4 num rádio de 915 é ROE nas alturas e PA sofrendo.
Nasce o Reator 4#
Todo projeto sério precisa de nome. O nó fixo se chama Reator 4.
A especificação ficou assim:
- Núcleo: decidi pela Station G da B&Q. Achei a G3, sucessora da G2, na loja deles. Placa com PA forte e LNA bom, feita pra nó fixo.
- Antena: colinear de fibra de vidro para 915 MHz, de 5,8 a 8 dBi, conector N, no alto. Tenho umas omnis longas de 900 MHz encostadas que posso testar também.
- Cadeia de RF: G3 (SMA) → jumper curto SMA–N → filtro de cavidade → protetor de surto → antena. Regra de ouro: rádio colado na antena, sem cabo coaxial longo descendo o mastro.
- Meta: cobrir no mínimo 15 km.
O cenário real: a casa fica a uns 30 m acima do nível do mar e a antena vai ficar a uns 12 m de altura. Não é torre, mas Linhares é plano, e cada metro conta.
Onde parei#
Às 13h, o placar do Reator 4 era este:
- B&Q (Station G3): mandei mensagem perguntando se enviam pro Brasil. Sem resposta.
- Vendedor do Mercado Livre: perguntei sobre uma antena 915 MHz (faixa, conector, tamanho). Sem resposta.
Sem a G3, o reator nem liga. Então o projeto está oficialmente aguardando os vendedores.
E o blog?#
No meio da espera, fui mexer no home lab. Arrumei o DDNS do roteador, recuperei o acesso ao servidor de casa e, papo vai, papo vem, resolvi subir um blog pra registrar essas coisas. Hugo, tema Blowfish, grafite e âmbar, rodando num OptiPlex aqui em casa.
Este é o primeiro post dele, escrito no mesmo domingo em que ele nasceu.
Continua?#
Depende dos vendedores.
Se alguém responder, tem Parte 2: compra, chegada, flash do firmware, configuração e o primeiro teste de alcance pelas ruas de Linhares.
Se ninguém responder, este post nasce e morre aqui, como registro de um domingo em que eu quis ser o primeiro do norte.
De qualquer forma, o mapa continua vazio. Por enquanto.
douglas@home-lab-vago:~$ ./reator4 --status
[ AGUARDANDO HARDWARE ]